Isso acontece no Brasil

Copa do Mundo de Futebol de 2014: uma ideologia usada para esconder as verdadeiras causas da pobreza e das injustiças sociais

11:56 0 Comentarios

9659C85956D14DC586B5D9E021B8563B
O que é ideologia? Para que serve? Quais suas principais características? A ideologia, no sentido marxiano, é uma ilusão, uma mentira criada pelos dominantes para assegurar que os dominados permaneçam passivos, quietos. A classe dominante de uma sociedade produz uma ideologia para manter sua dominação e "iludir" a classe dominada. Para Marilena Chauí "a ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (conduta) que indicam a prescrevem os membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar o que devem valorizar e como devem valorizar o que devem sentir o que devem fazer e como devem fazer".


Somos sabedores que a ideologia esconde, por exemplo, como os seres humanos se organizam para compor a sociedade e como essa mesma sociedade funciona, perpetuando determinadas condições onde uns são simplesmente quantidade, enquanto outros gozam de qualidade de vida. Esconde, também, as verdadeiras causas da pobreza e das injustiças sociais que ocorrem no sistema produtivo regido pela propriedade privada. A ideologia elaborada pelos intelectuais da burguesia justifica a feiura do mundo em que vivemos. Para a burguesia é necessário que todos, ou pelos menos a maioria, aceitem a sociedade do jeito como ela é, sem nenhuma visão crítica.
"O futebol praticado, vivido, discutido e teorizado no Brasil seria um modo específico, entre tantos outros, pelo qual a sociedade brasileira fala, apresenta-se, revela-se, deixando-se, portanto descobrir" (Roberto Augusto Da Matta). A concepção de ideologia que pretendemos nos apoiar na análise da Copa do Mundo de Futebol é a defendida por Edward Palmer Thompson, que diz que a análise da ideologia pode ser vista como uma parte integrante de um interesse mais geral ligado às características da ação e da interação, às formas de poder e de dominação, à natureza da estrutura social, à reprodução e à mudança social, às qualidades das formas simbólicas e a seus papéis na vida social.
Como instrumento de dominação ideológica, citamos o caso da Copa do Mundo de Futebol utilizada politicamente para distrair o povo dos seus reais problemas. Essa modalidade de esporte é um evento que pertence à Federação Internacional de Futebol (FIFA). Esta entidade é que planeja toda a competição, que negocia o valor das transmissões, paga os cachês às seleções e não presta conta a quem quer que seja, quando muito ao FISCO suíço, onde é sediada. Quem ganha com esse evento? O País que está sediando a Copa ou a FIFA? Quem assumirá o pagamento pela dívida? É o povo. O lucro ficará com os governantes e as grandes e pequenas empreiteiras.
Na realidade, dentro da estrutura administrativa e econômica dos Clubes de Futebol há uma cristalina contradição de classes sociais que se forma. Na parte superior da pirâmide futebolística estão os indivíduos chamados de CARTOLAS, abastados senhores de pomposos sobrenomes e gordas contas bancárias, que vêem no futebol um ótimo terreno para ampliar sua riqueza à custa do trabalho alheio. Tais senhores são acompanhados de uma casta parasitária de conselheiros, comumente atrelados a grupos políticos que indicam quem deve assumir os principais cargos do clube e, por vezes, escalam determinados jogadores que irão atuar em determinadas partidas de futebol.
Prezados leitores deste conceituado jornal amazonense, o futebol tornou-se um grande negócio para a burguesia futebolística justamente porque essa classe de indivíduos explora todos os trabalhadores que tornam esse esporte um negócio extremamente lucrativo (os jogadores, os técnicos, os preparadores físicos, os preparadores de goleiros etc.). Como exemplos citamos os grandes grupos econômicos que compram ações de clubes de futebol, empresários que se tornam procuradores de jogadores usando-os como mercadoria, patrocinadores que estampam suas logomarcas nos uniformes dos Clubes de Futebol e, não menos importante, a FIFA que explora a Copa do Mundo de Futebol.
O que de fato está ocorrendo agora (e que ocorrerá nesses próximos anos) é que os políticos brasileiros defendem com unhas e dentes a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 como uma desculpa esfarrapada para a construção de obras consideradas por nós como supérfluas porque só servirão para engordar as contas bancárias das grandes empreiteiras, e quem sabe torná-las mais generosas quando forem convocadas para contribuir com doações para as campanhas de cargos eletivos desses políticos (Deputados Estaduais, Deputados Federais, Senadores, Governadores, Prefeitos etc.). É uma ideologia usada para garantir o dinheiro que financiará suas campanhas.
Em todas as capitais da federação que sediarão jogos da Copa, o dinheiro público (erário) está sendo jogado fora, por conta da Copa do Mundo de Futebol de 2014, pois apesar de São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Pernambuco e outras contarem com magníficos estádios de futebol, que, com pequenas reformas e adaptações, atenderiam a todas as exigências da FIFA, os governos estaduais optaram por gastar uma fortuna na construção de novos estádios, fadados a se transformarem em obras faraônicas, depois da Copa, como aconteceu, por exemplo, na África. Enquanto isso, a Educação, a Saúde, o Saneamento Básico das Cidades, a Segurança etc. ficam relegados a plano secundário.
O Estádio Vivaldo Lima, também conhecido como Vivaldão, foi o maior estádio de futebol de Manaus, e, juntamente com o Estádio Ismael Benigno, atendia a vários clubes de futebol do Estado e, também, a famosa Copa dos Rios. Sua localização estratégica no centro regional, embalada pela riqueza econômica da cidade possibilitou a escolha de Manaus como uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Todos somos sabedores que após a escolha de Manaus como sede da copa o antigo Estádio foi demolido para dar lugar à Arena da Amazônia, que terá capacidade para 47.000 pessoas. Havia mesmo necessidade de demolir o ontológico Estádio?
A Copa do Mundo de Futebol, uma das manifestações simbólicas da humanidade, não é ideológica em si mesmo, mas se torna uma ideologia, na medida em que é utilizada num determinado contexto social no sentido de transparecer valores e verdades de uma determinada concepção que se pretende tornar hegemônica, ou seja, direcionar a existência do homem para a condição de consumidor de mercadorias de luxo. "As formas simbólicas, ou sistemas simbólicos, não são ideológicos em si mesmo: se eles são, e quantos são ideológicos depende das maneiras como eles são utilizados e entendidos em contextos sociais específicos" (Edward Palmer Thompson).
Elizeu Vieira Moreira é Professor da SEDUC e do PARFOR/FACED/UFAM.








0 comentários:

Postagem mais recente Página inicial Postagem mais antiga